Nunca te vi, sempre te amei: a Escola-Comuna
Enviado em 3 de Dezembro de 2009
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por Cecília Luedemann*
Lançamento de A Escola-Comuna, coletânea de textos organizada por Moisey M. Pistrak, durante o Ato Político dos 10 anos da Editora Expressão Popular no Cepis, surpreende educadores populares e especialistas da educação.
No campo da educação, a publicação desta obra inédita, traduzida do russo por Luiz Carlos de Freitas (Unicamp-SP) com a colaboração de Alexandra Marenich, é tão importante quanto a publicação de Poema Pedagógico, de Anton S. Makarenko, no Brasil, nos anos de 1980. Como um escrito visionário, utópico, na verdade A Escola-Comuna é o relato de uma experiência real. Quem lê as primeiras páginas não consegue mais parar, mergulha nas histórias dessa aventura pioneira. É amor à primeira vista. A escola que todo trabalhador socialista sonhou para si, seus filhos e toda a humanidade, com as cores reais da realidade concreta, suas dificuldades, desafios, dúvidas e realizações.
A Escola-Comuna é um clássico da pedagogia soviética que se manteve totalmente desconhecido no mundo inteiro. Esse impressionante relato das experiências dos primeiros anos da escola socialista foi enterrado junto com os educadores, entre eles Pistrak e Pinkevich, fuzilados pelo Estado estalinista em 1937. Nesse mesmo ano, a Comuna Dzerjinski, dirigida por Makarenko, foi fechada. Por que esses pedagogos, como Krupskaia, Lunatcharski, foram perseguidos e assassinados? No final das contas, percebeu-se a importância estratégica da educação na formação das novas gerações e na condução da revolução.
Se a educação soviética tomasse o rumo da Escola-Comuna, teria formado gerações de trabalhadores críticos, revolucionários, que teriam continuado o processo de luta geral do socialismo e não a tese estalinista do socialismo num só país. Essa tese levou ao sacrifício da primeira geração que participou da revolução de 1917 e criou a pedagogia socialista com os princípios da coletividade, da autodireção ou autogestão, do trabalho útil socialmente, do currículo organizado como estudo do complexo (natureza, trabalho e sociedade), do conhecimento científico e cultural amplo.
Com o assassinato de pedagogos como Pistrak, instaurou-se a pedagogia estalinista: a aula como centro, a didática da sala de aula, o tecnicismo, a formação especializada no lugar da politecnia. Era a educação para o desenvolvimento industrial da sociedade soviética.
O que havia de tão perigosa nessa experiência da Escola-Comuna para os líderes da contrarrevolução soviética? Tudo, desde a sua organização interna, seu currículo, seus objetivos, seus princípios educativos, suas relações com a sociedade, com a luta geral dos trabalhadores. Uma escola contra a ordem do capital. Uma escola autogestionária. Uma escola onde educadores e educandos são camaradas.
Nenhuma outra experiência da escola capitalista, mesmo a mais democrática, pode se aproximar de algo assim tão fantástico para a educação integral e libertadora da humanidade quanto a Escola-Comuna. Ao colocarmos as mãos nessa obra, temos a mesma sensação provocada pelos versos de Vladimir Maiakovski: “No túmulo dos livros, / Versos como ossos, / Se estas estrofes de aço / Acaso descobrirdes, / Vós a respeitareis, / Como quem vê destroços / De um arsenal antigo, / Mas terrível.”
A obra dos educadores dos anos de 1920, ao lado de Pistrak, foi trazida à vida por Luiz Carlos de Freitas, em seu estudo sobre fontes bibliográficas na Rússia, durante um semestre de 1996. Depois de 10 anos dedicados à tradução e ao estudo da pedagogia socialista dessa primeira fase da revolução soviética, Freitas também nos oferece os resultados de sua pesquisa com o texto de apresentação “A luta por uma pedagogia do meio: revisitando o conceito”. Somos transportados para o período da guerra civil, logo depois da decretação do fim da propriedade privada, do direito universal à educação. A obra mostra essa fase inicial da construção da Escola Única (1918-1923), cujo princípio fundamental é assegurar que a educação garantirá a extinção das classes sociais no plano da criação cultural, científica e política. É a educação da geração que dirigirá o Estado Socialista. Educação para comandar e ser comandado, em processo de direção coletiva e autogestão.
Freitas traz uma análise para compreender o papel do Estado sob comando da classe trabalhadora para a construção da nova escola socialista. Sob direção de Lunatcharsky e Krupskaya, o Comissariado Nacional da Educação da União Soviética reuniu pedagogos e especialistas comprometidos com a constituição da educação socialista e criaram 100 escolas experimentais, designadas como Escola-Comuna. Em cada uma dessas escolas deveriam ser criadas as condições para o desenvolvimento dos princípios da educação da nova geração socialista: a autogestão, o trabalho produtivo unindo a atividade intelectual e manual, a participação política, a plena realização da infância e da adolescência como realidade concreta e atual, participante da vida local e internacional.
“A Escola-Comuna”, com a apresentação da pesquisa de Freitas sobre a Pedagogia do Meio e as contribuições de Pinkevich e Shulgin, é a primeira publicação dos resultados dessa magnífica experiência. O livro está dividido em duas partes: “A escola do trabalho no período de transição”, escrito por Pistrak, e os relatos dos educadores sobre o trabalho com as disciplinas de Matemática, Ciências Naturais, História e Ciências Sociais, Ciências Econômicas, Literatura e Artes Plásticas. Os relatos descrevem a vida escolar, desde suas atividades científicas, culturais e políticas, até as atividades produtivas e de autogestão. Um refinamento extraordinário de aplicação das pesquisas no campo da pedagogia, experimentação e avaliação dos resultados.
No prefácio dessa edição em russo, N.K. Krupskaya explica essa primeira da série de publicações da Seção Científico-Pedagógica, biblioteca da revista Caminhos para a nova escola: “A coletânea publicada, que descreve a vida da primeira Escola-Comuna experimental do Comissariado Nacional da Educação, reflete o enorme trabalho feito. Ela narra como a escola cresceu internamente e desenvolveu-se – percorre todo o caminho de seu desenvolvimento, momentos críticos, crises de crescimento, dificuldades que teve que superar”.
Um livro para ser usado como referência contra os modismos pós-modernos que cresceram durante a crise educacional brasileira e ultrapassar a velha escola burguesa, neoliberal ou reformista, rumo à construção da Escola Única. Uma escola que já está dentro do coração de cada um de nós, trabalhadores que lutamos pelo fim da exploração capitalista e com a construção da sociedade socialista. Uma teoria presente nas experiências de formação pedagógica e política do Instituto Educacional “Josué de Castro” e pelas escolas itinerantes do MST. Um livro de referência para todos os educadores, educandos e trabalhadores comprometidos com a luta socialista.
*Jornalista, educadora e colaboradora da Editora Expressão Popular e do setor de educação do MST, autora de Anton Makarenko- a pedagogia na revolução (Coleção Vida e Obra - Editora Expressão Popular) e Carrapicho (Coleção Terra de Livros- Infanto Juvenil- Editora Expressão Popular)