O GOSTO DOCE DA ESCOLA
Enviado em 24 de Novembro de 2009
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O pedagogo ucraniano Anton Makarenko criou e praticou a escola como uma experiência de coletividade.
POR CECÍLIA DA SILVEIRA LUEDEMANN Jornalista formada pela Escola de Educação e Artes (USP), educadora, mestre em História e Filosofia da Educação (PUC/SP), autora de Makarenko - Vida e obra (Expressão Popular, 2002), colabora com o setor de educação do MST - Sem paredes. Escola Municipal Desembargador Amorim, inspirada em Makarenko
(Carta Fundamental, out 2009, no. 12, pp. 52 a 55)
Qual é a atualidade do pensamento de Makarenko, um pedagogo nascido há 121 anos, nas terras distantes e geladas da Ucrânia? Diante da profunda crise vivida pela educação brasileira, Makarenko nos auxilia a demarcar claramente as diferenças entre a escola criada no solo do liberalismo (desde suas versões conservadoras, como Durkheim, ou progressistas, como Dewey), e a escola única, criada no solo da luta antiliberal e socialista.
Anton Semionovich Makarenko (1888-1939) foi professor e diretor de escolas públicas em um tempo de revoluções. Ele viveu a derrubada do império czarista e da dominação da Ucrânia e a Revolução Russa. Os educadores que, com Makarenko, viveram o período revolucionário, desde as primeiras décadas do século XX, enfrentaram euforicamente o desafio de criar uma escola única, para todos. Por mais progressista que fosse a iniciativa de construção de um sistema público de ensino na sociedade capitalista, a educação era sempre diferenciada: de um lado, a escola disciplinadora, profissionalizante, de currículo limitado para os filhos dos trabalhadores; de outro, a escola para a elite, com currículo desenvolvido para o trabalho intelectual e o comando.
Makarenko estudou as novas pedagogias, participou dos debates promovidos nos círculos culturais e científicos para a construção da escola única e criou sua obra pedagógica na teoria e prática. Sua fantástica experiência educacional está vivamente narrada em seu livro Poema Pedagógico, traduzido no Brasil por Tatiana Belinky. “Makarenko”, explica Tatiana, “se pronuncia com acento no ka e não no ren.” E acrescenta: “Ele não criou a sua pedagogia na revolução. Ele era a revolução”.
O que podemos entender das palavras de Tatiana? “Makarenko era a revolução” porque trazia para a escola a força da participação popular dos romances de Gorki, como A Mãe. Era a revolução porque construía o currículo culto, como nos livros de Tolstoi para as crianças camponesas, em Iasnaia Poliana, escola fundada por esse escritor. E, mais uma vez, Tatiana tem razão quando diz que Makarenko era a revolução, pois criou uma escola baseada no princípio de Lenin: a nova educação deveria criar uma sociedade sem diferenças sociais, uma sociedade de iguais, na qual todos seriam educados para comandar e ser comandados.
COLETIVIDADE COMO CENTRO
Suas descobertas são tão extraordinárias para o campo da sociologia da educação como são as de Vigotskipara a psicologia do desenvolvimento. Makarenko percebeu algo de fundamental. Não era a criança o objeto ?a pedagogia. Ele desmontou a lógica da educação liberal- abstrata, ideal e individualizante - e criou a lógica da escola única: a coletividade. Para ele, a pedagogia deveria estudar o processo pedagógico. No lugar da criança, coloca-se o processo de construção da escola como coletividade. Ali, na coletividade, nas relações sociais estabelecidas entre educandos, se daria a nova educação de todas as crianças.
A escola como coletividade é organizada para que os educandos assumam a direção de suas próprias vidas. Para que o comando esteja nas mãos dos educandos, é preciso destruir a antiga maquinaria escolar da educação liberal. A coletividade é educadora, com seus órgãos de autogestão: coletividades primárias de educandos, coletivo dos educadores, conselho de representantes e assembléia.
Sua principal experiência pedagógica, a “Colônia Gorki” (1920-1928), era formada por crianças e adolescentes órfãos, doentes, famintos, marginalizados, marcados pela exclusão. Uma realidade ainda muito presente na situação b_asileira do século XXI. Essa dificuldade de seguir em frente, de acreditar em si, de continuar descobrindo, criando, aprendendo, foi chamada, por Maria das Mercês Ferreira Sampaio, de “gosto amargo de escola”. Ela pesquisou, em seu trabalho de doutorado, como funciona, ainda hoje no Brasil, o mecanismo da perversidade na escola pública para a exclusão dos filhos de trabalhadores: a escola não é para todos, é para alguns.
A revolução educacional empreendida por pedagogos como Makarenko e Moisey Pistrak consistiu em levar à frente a criação da escola única, o “gosto doce de escola”. Um lugar de realização e existência plena da infância. Uma escola para todas as crianças e adolescentes, de diferentes culturas, faixas etárias, gêneros, etnias. Uma escola com um currículo amplo, culto, criativo, sem separar o trabalho manual do trabalho intelectual.
ESCOLA ITINERANTE DO MST
No Brasil, Makarenko inspirou várias experiências de educação popular nas escolas operárias e camponesas organizadas pelos movimentos sociais. Em São Paulo, um exemplo de educação progressista inspirado em Makarenko se deu no Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem, com a direção de Eliza Kaufrnan Abramovich. Pelos olhos de Eliza, a escola deveria ser o lugar privilegiado de vivência da infância, nos fazendo pensar sobre a frase makarenkiana, grifada por ela no livro Poema Pedagógico: “Não temer a vida e admirar o valor de todas as coisas do mundo”. A escritora e pedagoga Fanny Abramovich, filha de Eliza, trabalhou por onze anos no Scholem Aleichem, criando ali o revolucionário Centro de Artes e Educação, conhecido como “Escolinha de Artes” ou “Escolinha da Fanny”, tomando Makarenko como referência. Esse “gosto doce de escola”, de inspiração makarenkiana, foi traduzido por Fanny para a cultura brasileira, com ajuda de Paulinho da Viola, desta maneira: “As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”.
A Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, no bairro do Butantã, em São Paulo, dirigida desde 1996 por Ana Elisa Siqueira, se mantém como uma das referências de inspiração makarenkiana, mas também fortemente marcada pela experiência portuguesa da Escola da Ponte, dirigida pelo educador José Pacheco. Com certeza, encontraremos em outros municípios experiências como esta, em que derrubar as paredes da sala de aula e abolir os provões pode ser o começo para a criação da escola como coletividade.
A criação mais próxima da pedagogia da escola como coletividade consiste, atualmente, na Escola Itinerante, já com doze anos de existência no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, legalizada em 1996. Como nos mostra Isabela Camini, em sua tese de doutoramento: “Ao visitar dezenas de escolas itinerantes em seis estados da Federação, as quais tiveram como referência a experiência em processo no Rio Grande do Sul, foi possível perceber que a comunidade Sem Terra nos acampamentos tem a escola itinerante como sua, orgulha-se dela e de sua pedagogia. É uma escola pública estadual, próxima de sua realidade, que, no dia a dia, não se desvincula da vida dos sujeitos que estão acampados, itinerantes. Embora em condições físicas às vezes precárias, ela não se fecha pelas cercas ou grades. Pelas suas características, essa é uma escola que rompe com a histórica visão de escola cercada de muros, escondida atrás das grades, distanciada da vida das crianças, adolescentes e comunidade que a cerca. Uma escola viva, alegre, séria e comprometida com a classe trabalhadora” .
Mas essa mesma Escola Itinerante, que ensinou o “gosto doce de escola” para milhares de crianças do campo, está ameaçada no Rio Grande do Sul, como podemos ler no Jornal Sem Terrinha (abril de 2009): “A governadora do estado fechou todas as escolas e quer que todas as crianças Sem Terrinha peguem ônibus para estudar em uma escola bem distante do acampamento ou do assentamento”. Os filhos dos trabalhadores devem experimentar apenas o gosto amargo de escola?
MAKARENKO E BIBLIOGRAFIA CITADA
LUEDEMANN, Cecília da Silveira. Anton Makarenko, Vida e Obra. Expressão Popular: SãoPaulo, 2002.
KUMARIN, V. Anton Makarenko: Su vida y labor pedagógica. Editora Progresso: Moscou, 1975.
CAPRILES, R. Makarenko: O nascimento da pedagogia socialista. Scipione: São Paulo, 1989.
WARDE, Mirian Jorge. Liberalismo e Educação. São Paulo: PUC, 1984 (Tese de Doutoramento).
SAMPAIO, Maria das Mercês Ferreira. Um Gosto Amargo de Escola: Relações entre currículo e fracasso escolar. EDUC: São Paulo, 1998 (Tese de doutoramento).
PISTRAK, M. Fundamentos da escola do trabalho. Expressão Popular: São Paulo, 2005. ABRAMOVICH, Fanny. Ziguezagues: Andanças de uma educadora e escritora. Atual: São Paulo, 1996.
PACHECO, José. Escola da Ponte: Formação e transformação da educação. Vozes: Petrópolis, 2008.
CAMINI, Isabela. Escola Itinerante. Expressão Popular: São Paulo (no prelo).


